Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2026

Eleições 2014: o órgão, os postulantes e a certeza do voto
Reflexão acerca da expectativa gerada após a eleição daqueles que foram beneficiados com o seu voto

Por ARQUIMEDES DE CERQUEIRA JUNIOR

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Há
tempos convivemos com a certeza da ineficiência do órgão criado
para gerir a nossa malha fundiária. Situação lamentável, pois não
foram poucas as vezes que assistimos o levante de pessoas e
bandeiras em torno da importância dada à Reforma Agrária pelos
governos antecessores, especialmente em época de campanha eleitoral.

Aí eu pergunto, houve mudança? Acredito que sim, mas não tão
significante quanto se pregava à época. Ao olharmos o campo de
forma fria, sem os apelos político-partidários tanto dessa quanto
daquela agremiação – sabemos que é comum o apontamento e
publicidade de números que nem sempre refletem a realidade

percebemos que os assentados não caminham com as suas próprias
pernas, já que o “peixe” chega à mesa do campesino pronto para
ser degustado, quando tal fato acontece. Nesse caso, o correto não
seria darmos o anzol e a linha, cabendo-lhe a coleta da isca e a
própria ação de pescar?

Em momento algum afirmo que sou contra o assistencialismo, óbvio que
como uma ação preliminar com prazo de validade certo e amparado nas
reais condições adquiridas pelo indivíduo, já que saco vazio não
fica em pé. Entretanto, meritoso não é alardear que esse tipo de
programa atingirá milhões de famílias por um longo período de
tempo. O meu ponto de vista é totalmente diferente, pois como disse
acima, não sou contra tal assistência, mas a favor de que haja a
redução do número de pessoas beneficiadas dessa forma com o passar
do tempo. Assim sendo, ficaria nítida que tais políticas públicas
adotadas estariam propiciando a inserção dessas pessoas num modelo
produtivo que não dependeria mais dessas benesses provenientes do
erário.

A contextualização acima reflete o tratamento dispensado pelos
governos aos beneficiários da Reforma Agrária, bem como a população
carente de uma forma geral. Em relação aos assentamentos (PA, PAC,
PAE, PDS, etc), muitos deles só foram implantados; mal desenvolvidos, quando os foram, e totalmente carentes de infraestrutura. Enfim, verdadeiras favelas rurais, como afirmara o Sr. Gilberto Carvalho,
atual ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República.

Recentemente, após a prematura morte do candidato Eduardo Campos e o lançamento
da Candidatura de Marina Silva, estabeleceu-se o fortalecimento de
uma terceira via, dentre as opções, aumentando a expectativa no que
tange às propostas de governo relativas ao meio ambiente e ao campo
(assentamento, agricultura familiar, sustentabilidade econômica e
socioambiental). Acredito – assim como acreditávamos no partido
que hoje detém o poder
– que se essa postulante obtiver êxito
na próxima eleição a mesma dará ênfase às atividades do meio
rural, especialmente na implementação de um ministério forte que
venha a estabelecer um modelo sustentável de produção. No entanto,
lembramos que o Brasil é um país complexo, e não se resume apenas
a esses setores. Além disso, não basta apenas vontade pessoal e
senso de justiça para fazer mudanças significativas, mas um bom
quadro técnico, bem como políticos hábeis, dada a necessidade
constante de diálogos e negociações para compor uma base de
sustentação junto ao Congresso Nacional. Um desafio a ser superado
por esta senhora, inclusive para promover as tão desejadas reformas
políticas e tributárias indispensáveis ao crescimento moral,
econômico e social desse jovem país.

Por outro lado, ainda sobre essa terceira via, nota-se o quanto seus opositores
estão ávidos para neutralizá-la. Incessantemente, vêm tentando
desmerecê-la no que tange a sua capacidade de gestão, já que nunca
geriu coisa alguma, esquecendo-se eles que os ex-presidentes Lula e
Fernando Henrique Cardoso também não exerceram com tanto afinco
atividades afins. Apesar de aparentar uma pessoa fraca em virtude da
sua silhueta e humildade contagiante, mostra-se uma mulher de fibra,
com conhecimento técnico sobre os principais temas que vêm
afligindo o país, bem como dotada de uma boa oratória com
capacidade de representar o país mundo afora. Entretanto, expectativa sobre o
seu desempenho antes da eleição nada tem a ver com a sua
desenvoltura – como governante – numa eventual vitória no certame
que se aproxima.

Em relação as outras duas opções, basta olharmos para trás e
constatarmos o quanto o órgão e seus colaboradores vêm sendo
vilipendiados ao longo desses anos. Pensávamos numa reestruturação
onde todos sairiam beneficiados, tanto o público beneficiário
quanto o órgão e seus servidores. Somado a isso, a sociedade
estaria batendo palma, pois muitos que hoje residem nos famosos
bolsões de pobreza localizados nas grandes cidades estariam em suas
comunidades cultivando a terra, barateando o pão nosso de cada dia
e, com isso, reduzindo o índice de criminalidade cada vez mais
crescente. Isso não seria o verdadeiro objetivo da Reforma Agrária?

Ressalto que toda e qualquer mudança só acontece de fato quando os atores –
massa de protagonistas carentes e/ou afetados por medidas
contrárias
– envolvidos se rebelam para reivindicar algo que
não concordam. Hoje, aparentemente, percebemos que está tudo às
mil maravilhas, tendo em vista que não se veem mais os movimentos
sociais e sindicais atuando como antigamente. Onde estão aquelas
lideranças que outrora iam às ruas? O que pensam os seus liderados?
Eles são ouvidos? Certamente, qualquer um ficaria intrigado, pois
das duas uma: eles alcançaram suas metas reivindicatórias ou foram
calados pelos seus líderes… Oh falta das ações do MST, CUT, CGT,
Força Sindical… Caros, não podemos esquecer dela, a UNE… Tá
morta, viva?

Há de salientar que a ação desses movimentos são cruciais, pois são
“termômetros” que medem o grau de insatisfação de uma
sociedade. Parece-me que o Brasil perdeu a naturalidade ao protestar
em busca de melhorias, a ponto de calar-se, quando correto seria,
caso não obtivesse êxito em seus pleitos, dar continuidade à luta.
A luta aqui não é a base de quebra-quebra, danificando o bem
público ou privado, mas com palavras de ordens proferidas –
exaustivamente, e embasadas com argumentos – pelos movimentos
sociais, sindicais, contando ainda, quando necessário, com o apoio
dos jovens estudantes de hoje que representarão o amanhã. Por isso
o meu questionamento: onde está a UNE, a UBES?

Quando se aproxima as eleições somos indagados, questionados e, muitas vezes,
culpados por não saber votar. O fato é que o quadro apresentado,
apesar de amplo, no frigir dos ovos, após as eleições, são os
mesmos, leia-se: alianças pré e pós eleição – criação e
manutenção de uma base de sustentação para fins de aprovação de
leis, projetos, decretos e medidas provisórias
– com partidos
conhecidamente fisiológicos, ideologicamente contrários, dotados de
fome de poder e aptos a não medir esforços para emplacar os seus
pares em ministérios, presidências, diretorias, e nas famosas
coordenações, ou seja, verdadeiros sanguessugas. Enfim, o ganho do
território através do estabelecimento de um poder paralelo ou
vice-versa. Não pensem vocês que a fome deles para por aí, caso
aconteça um desentendimento ou rompimento partidário na base de
governo, ou a constatação de uma irregularidade, troca-se apenas a
coleira, pois muitos aparecerão, digo, partidos e indivíduos –
todos estarão na espreita para catapultar um dos seus.

Por fim, resta-me constatar que a ação de votar parece tão simples que nos
leva a pensar ser diretamente proporcional à expectativa que temos
em relação a concretização das promessas feitas por aquele
candidato antes da eleição. Após o êxito vêm as decepções e as
costumeiras cobranças em virtude de não sabermos votar, apesar de
já termos testados gestores com diversos viés e características
pessoais, dentre eles militares, direitista, esquerdista,
extremados, cultos, não cultos, inteligentes, ardilosos,
oportunistas, eleitos pelo povo, indicados pelo estado, etc.
Portanto, uma gama de tipo de personalidades, políticos e partidos
de seguimentos ideológicos supostamente diferentes e ao mesmo tempo
parecidos na condução dos seus governos. Democracia também é
isso, mesmo achando que ao longo desses anos ainda não aprendi a
votar. E vocês, sabem votar?

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