Segunda-feira, 8 de Agosto de 2022

Diálogos Agrários promove debate por ocasião do Dia Internacional da Mulher
Convidadas trocaram experiências e debateram questões ligadas ao papel feminino na profissão e na sociedade; Evento teve transmissão ao vivo pelo YouTube.

O Sindicato Nacional dos Peritos (e Peritas 🙂) Federais Agrários (SindPFA) promoveu, na segunda-feira (8), Dia Internacional da Mulher, uma edição especial do Diálogos Agrários com mulheres que ocupam espaços no trabalho de representação da categoria, para contar histórias de vida e conversar sobre a trajetória com a escolha da profissão e ingresso no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). O evento teve transmissão ao vivo pelo canal do YouTube da entidade.

Para esta edição, foram convidadas Luber Katia, PFA em Rondônia e diretora de Aposentados no SindPFA; Maria Aparecida Lucena, Perita aposentada do Amazonas e suplente na mesma diretoria; Magda Estrela, PFA delegada da Sede e, agora, também diretora Jurídica; Carolina Araújo, Perita e delegada Sindical no Pará; Teresinha Aguiar, PFA e delegada no Piauí; Janice Morais Oliveira, Perita lotada no Goiás e presidente da Comissão de Ética; além de Maria Eduarda Penaforte, advogada, funcionária do SindPFA. A apresentação ficou a cargo da presidente da entidade, Djalmary Souza.

“Hoje é dia de celebrar, mas também de relembrar a história de luta da mulher na busca por igualdade, respeito, espaço e voz na sociedade civil e nos ambientes sociais e profissionais. Para nós, enquanto Sindicato, é também uma data muito simbólica, porque o 8 de março, embora tenha sido oficializado pela ONU somente em 1975, remonta à luta de mulheres desde o início do Século 20 por melhores condições de trabalho e igualdade de direitos”, afirmou Djalmary. “Ou seja, essa data tem uma origem no universo sindical”, completou.

Nesta gestão, há mulheres à frente de todos os órgãos colegiados do SindPFA: são 14 cargos ocupados por mulheres nesses órgãos, sendo quatro na Diretoria, seis nas Delegacias Sindicais, dois no Conselho Fiscal e dois na Comissão de Ética. Além disso, a entidade conta com duas funcionárias dentro do quadro de colaboradores.

“Eu tenho a honra de, sendo mulher, presidir hoje um sindicato de uma categoria majoritariamente masculina, que ainda é uma característica da área agronômica, e poder testemunhar avanços na nossa representação”, celebrou a presidente.

A íntegra do evento pode ser assistida no canal do SindPFA no YouTube.


O que foi dito

Antes de passar a palavra para as convidadas, Djalmary Souza fez um raio-x da categoria:

“Somos hoje 173 mulheres num universo de 1.113 Peritos Federais Agrários, ou seja, 16% do total; sendo 117 Peritas na ativa e 56 aposentadas. A delegacia que, proporcionalmente, mais tem mulheres é o Amazonas (AM), meu estado, com 40% (somos 8 mulheres e 12 homens); em segundo lugar, temos Roraima (RR), com 33% (são 4 mulheres e 8 homens); e, em terceiro lugar, temos o Pará, com 31% (são 17 mulheres e 37 homens). As delegacias que, proporcionalmente, menos têm mulheres são três, todas com 5%: Paraná (PR) (35 homens e 2 mulheres); Mato Grosso do Sul (MS) (37 homens e 2 mulheres); e Médio São Francisco (MSF) (18 homens e apenas 1 mulher). Em números absolutos, a delegacia com mais mulheres é a Sede, com 20. Também em números absolutos, as delegacias com menos mulheres são, empatadas com uma representante cada, a de Santarém e Médio São Francisco, como já dissemos”, detalhou.

Em sua fala, Luber Kátia contou um pouco como foi sua experiência no curso de Engenharia Agronômica. “Na minha turma, de 44 alunos, 14 eram mulheres. Uma diferença  bem grande”, disse. “Já na nossa Delegacia, é muito tranquilo o trabalho com os colegas. Rondônia é um estado que foi desgarrado e as mulheres também tiveram um papel muito importante, porque, quando o Incra foi instalado aqui, vieram várias colegas do Nordeste para cá e se impuseram. Então, historicamente, dentro da nossa SR [Superintendência Regional] é muito tranquilo trabalhar”, relatou.

Já para a PFA Magda Estrela, o começo no curso de Agronomia foi ainda mais solitário. “O início foi meio complicado, porque a parte central da Escola de Agronomia [em Goiânia] não tinha banheiro para mulher. Teve matéria que eu fiz sozinha. O professor não chamava meu nome na chamada e eu questionava, mas ele respondia que, como era só eu [de mulher], ele sabia quando eu estava presente”, disse com bom humor. “Não é uma profissão muito fácil para a mulher”, afirmou. Sobre a disparidade salarial entre homens e mulheres, Estrela foi contundente. “Uma das razões que a gente faz concurso é ter a garantia de que você vai ganhar igual ao seu colega”, constatou.

Nascida no sertão paraibano, Aparecida Dias brincou com a resistência que sua mãe, “nascida na roça”, colocou ao descobrir que sua filha cursaria Agronomia. “Investi tanto numa filha para estudar ‘galha’ de mato”, dizia. Ao falar sobre sua trajetória no Incra, emocionou-se com as dificuldades vividas no período da ditadura. “Reduziram a 84 dias a licença maternidade. Meus filhos nasceram todos na época da ditadura, não tinha um dia de licença médica depois, um dia de férias depois, não se falava nisso. Quando ouvi falar que tinha agrônoma que fazia o trabalho de casa eu quase chorei de felicidade”, contou.

Janice Morais cumprimentou as colegas pelas histórias de vida e contou um pouco mais sobre sua vida profissional. “O maior motivo de ter feito agronomia foi o Globo Rural”, brincou. Aprovada no concurso de 2005, ela fez questão de ressaltar a importância da antiga Associação Nacional dos Engenheiros Agrônomos do Incra (Assinagro) na sua convocação para o órgão. “O Gilmar era o presidente na época e eu sou muito agradecida a ele porque foi ele quem colocou a pasta embaixo do braço e foi lutar pela convocação dos classificados”, contou Janice, que, já na autarquia, concluiu especialização em Agroecologia, uma de suas áreas prediletas dentro da carreira.

Carolina Araújo revelou que, no começo, pretendia estudar música, mas, por falta de apoio, decidiu buscar um curso “mais tradicional”. Optou pela Agronomia por inspiração em uma das tias, um exemplo para ela. “Eram quatro turmas. A seleção admitia 200 pessoas, então eu não lembro quantas eram mulheres. Mas sei que a maioria dos que se formaram eram mulheres. A gente já veio conseguindo quebrar esses paradigmas”, disse com orgulho. Mas nem tudo foi positivo. “Na época em eu estive lá [na UFRA] a estrutura era muito rígida, ainda muito machista. Eu, como aluno, entrei com 18 anos e passei por situações de assédio dentro da universidade”, revelou a PFA, que também afirmou não ter tido apoio em suas denúncias.

Teresinha Aguiar começou sua fala contando como sua infância, ao lado de seu pai, então servidor do Ministério da Agricultura, influenciou em sua carreira. “Só depois de adulta é que eu descubro que meu pai era funcionário do Ministério, só que aqui em casa só diziam que meu pai “trabalhava no fomento”. Só depois eu descobri que esse fomento, na verdade, era um campo experimental da Pasta e ele era trabalhador braçal”, contou Teresinha, que também revelou ter sido a primeira de sua família a entrar em uma universidade. “Minha origem é muito humilde e era muito difícil pessoas pobres entrarem numa universidade federal”. Ela ingressou no Incra no Estado do Amapá, longe de casa, o que também foi um desafio.

Advogada recentemente contratada pelo SindPFA, Maria Eduarda emocionou-se com os depoimentos e contou um pouco sobre sua vida. “Fui a primeira da família a cursar Direito e também a primeira a ingressar numa universidade federal. Essa minha escolha profissional vem muito do contexto vivido por mim durante meu crescimento, com a luta diária por uma vida confortável. E essa luta era encabeçada pela minha mãe, como chefe de família. Então eu vi no Direito uma ferramenta para eu conseguir de alguma forma facilitar essa luta diária não só da minha mãe, mas no contexto social mesmo. Eu via o Direito como [um caminho] para eu agir em cima disso e tentar transformar vidas, incluindo a minha própria”, afirmou.

Abaixo, você pode conferir a íntegra da edição.


O projeto

Com o Diálogos  Agrários, o SindPFA abre uma frente de debates e disponibiliza aos seus filiados e demais interessados um espaço para o crescimento profissional e a difusão de conhecimento. A pandemia da Covid-19 alterou de forma significativa a dinâmica de empresas, órgãos públicos e, é claro, entidades sindicais. Todas as edições podem ser conferidas clicando aqui.