Sábado, 8 de Maio de 2021

Diálogos Agrários com Itamar Vieira Junior tem recorde de público
Servidor do Incra e autor do aclamado romance 'Torto Arado' participou de entrevista descontraída em que comentou sobre trabalho, produção acadêmica, quilombolas, literatura, entre outros temas.

A edição especial do projeto Diálogos Agrários com o premiado escritor Itamar Vieira Junior foi um grande sucesso. Servidor do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), o autor de ‘Torto Arado’ foi entrevistado por representantes do Sindicato Nacional dos Peritos Federais Agrários (SindPFA), da Associação Nacional dos Servidores Públicos Federais Agrários (Cnasi-AN) e da Associação dos Servidores do Incra do Paraná (Assincra-PR) durante evento nessa terça-feira (6) com transmissão ao vivo pelo YouTube do Sindicato e pelas páginas no Facebook das entidades organizadoras.

Apresentada pela presidente do SindPFA, Djalmary Souza, a edição contou com a participação de Soraya Magalhães Moura, antropóloga, Analista em Reforma e Desenvolvimento Agrário do Incra desde 2013, representando a Cnasi; Cyro Fernandes Correa Jr., cientista social, especialista e mestre em Sociologia, Analista em Reforma e Desenvolvimento Agrário do Incra desde 2007, representando a Assincra/PR; e Paulo Roberto David de Araújo, engenheiro agrônomo, especialista em Agroecologia, mestre em Ciência Ambiental, Perito Federal Agrário do Incra desde 2005, representando o SindPFA.

Itamar Rangel Vieira Junior é graduado e mestre em Geografia e doutor em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia. É Analista em Reforma e Desenvolvimento Agrário do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária desde 2006, tendo atuado até 2009 no Maranhão e, após, na Bahia, no Serviço de Regularização de Territórios Quilombolas. Sua obra `Torto Arado` recebeu os prêmios LeYa 2018, Jabuti 2020 e Oceanos 2020.

Sua experiência no órgão ajudaram-no a inspirar a trama que conta a história de duas irmãs, Bibiana e Belonísia, e de seu povo, na Chapada Diamantina, na Bahia. A experiência também foi objeto de seu doutorado, concluído em 2017, com o título “Trabalhar é tá na luta”: vida, morada e movimento entre o povo da Iuna, comunidade quilombola localizada em Lençóis, na mesma região baiana em que se passa a história contada.

O romance aborda a relação de suas personagens e de seu povo com a terra, sob uma envolvente narrativa a partir do ponto de vista de suas protagonistas, com uma uma semiótica apurada. Mulheres fortes, reflexões sobre as condições de vida e trabalho, vicissitudes da ocupação do território, racismo, machismo, religiosidade e autoidentificação são elementos que enriquecem a obra, merecedora dos prêmios que tem alcançado.

“Este foi um evento que fugiu da nossa zona de conforto, e isso é ótimo. Entidades parceiras, múltiplas abordagens e temas variados. Acredito que conseguimos fazer uma discussão muito relevante com o Itamar; profunda, mas leve;, além de imprimir a nossa qualidade ao evento. O Diálogos foi um sucesso e novas edições virão”, afirma Djalmary Souza.


O evento

Esta edição do Diálogos Agrários bateu recorde de audiência. Pouco mais de 24 horas depois de encerrada, mais de 1300 pessoas já haviam assistido pelo canal do SindPFA no YouTube, que ganhou mais de cem novos inscritos. A participação durante o evento foi muito significativa, com mais de 800 comentários.

Durante o evento, Itamar Vieira Junior respondeu perguntas sobre a recepção do livro fora e dentro do Brasil, suas influências na literatura brasileira, sua produção acadêmica, além de avaliar a organização da luta dos quilombolas e trabalhadores rurais pela terra no Brasil. Sempre descontraído e aberto ao diálogo, o autor também comentou sobre sua intenção de permanecer como servidor público, revelada em recente entrevista ao jornalista Pedro Bial, além de escravidão, Incra e, é claro, sobre o processo de criação de ‘Torto Arado’. Ao final, também foram selecionadas perguntas dos espectadores. (assista toda a entrevista no player ao final da matéria).

Logo em sua primeira fala, Itamar saudou os colegas de trabalho. “É sempre muito bom falar com os colegas do Incra. Quando estou entre vocês, falando sobre esses temas, como o do Diálogos Agrários de hoje, é como se eu estivesse em casa, falando com a família mesmo. Porque o Incra é minha família. Nos últimos 15 anos tem sido minha família também”. E foi logo reafirmando sua intenção de seguir no órgão.

“Eu conciliei sempre o trabalho com outras atividades. Poucas pessoas vivem de literatura no Brasil; eu nunca encarei a literatura como profissão mesmo. Então eu sou escritor nas horas vagas e eu só posso me valer das horas vagas para realizar atividades relacionadas ao livro. Se eu for pensar, o Incra me deu mundos para que eu possa narrar esses mundos. Então eu não me vejo longe desse trabalho”, afirmou.

O escritor também contou sobre seu começo na autarquia e como percebe a importância dela no contexto nacional. “Cheguei no Incra e não sabia exatamente qual seria o trabalho e eu vi que o órgão tinha inúmeras políticas, inúmeras coisas pra se trabalhar. E eu me vi envolvido desde o começo porque eu via ali uma missão social muito importante” disse. “É aquilo que coadunava com os meus valores humanísticos. Pensar que o nosso trabalho pode melhorar a vida das pessoas, pode reduzir desigualdades, pode levar dignidade às pessoas, levar direitos humanos. Tudo isso me fez com que, com o passar do tempo, me visse absolutamente envolvido com este trabalho”, explicou.

Entre os muitos assuntos abordados, Soraya Magalhães colocou em discussão a conceituação do termo quilombola, provocando a desmistificando do senso comum sobre a formação das comunidades, que não são necessariamente derivadas de realidades como a de Palmares. “Em Torto Arado temos Água Negra, que é uma comunidade quilombola formada pelas rotas de migração de descendentes de ex-escravizados em busca de terras para se reproduzir”, lembrou na pergunta. “Queria que o romance espelhasse como essas comunidades vão construindo sua identidade, porque a identidade não é algo sólido, não está consolidado desde o nascimento. Essa identificação, como tudo que nós carregamos, é política também, é uma identificação que nos coloca no campo político como sujeitos plenos de direito. (…) Nem todo quilombola é trabalhador da terra, existem quilombolas que moram na cidade, por exemplo, ou ainda quilombolas que são pescadores, que praticam outras atividades”, respondeu Itamar.

Cyro Corrêa trouxe o tema da luta dos quilombolas por seus territórios, presente em personagens da obra, luta análoga a diversas lutas de trabalhadores rurais pelo acesso à terra, e também abordou a educação no campo, discutindo, por exemplo, o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), em que o autor trabalhou no Incra. “A gente vive um problema logístico nessas comunidades. Nos últimos anos a gente teve a criação de muitas universidades, mas o Brasil ainda precisa de mais, porque, num país continental como o nosso, elas continuam distantes. O Pronera cumpre uma função importante, permitindo a formação [dessas comunidades] desde a alfabetização à pós-graduação. É importante a gente pensar em todos os níveis de educação pro trabalhador rural, porque esse trabalhador precisa de assistência técnica, de assessoria jurídica, e o Pronera permitiu que muitas pessoas se formassem para contribuir e colaborar com suas comunidades”, disse o autor de Torto Arado.

Paulo Araujo abordou a violência relacionada à luta pela terra, relembrando episódios como o massacre de Eldorado dos Carajás (1996) e também uma chacina ocorrida em 2017 na comunidade Iuna, na Chapada Diamantina, na Bahia, objeto do doutorado de Itamar, enquanto ele escrevia o romance. “A gente, em nosso trabalho no Incra, convive com isso, também se submete e sofre um pouco com isso”, refletiu Paulo, que perguntou sobre os processos de reconhecimento das comunidades da região. “Aquele [2017] foi um ano terrível e acho que de alguma forma o que aconteceu atravessa o livro; qualquer obra literária é um recorte do que o autor pensa sobre seu tempo”, disse Itamar. “Até hoje a regularização fundiária [das comunidades da Chapada Diamantina] não foi concluída (…) são poucas as comunidades que conseguiram ser tituladas”, lamentou.

Djalmary perguntou ao colega se trabalhar num órgão como o Incra, que atua numa importante política afirmativa, inclui um componente de vocação e de ideal. “Eu sinto que aquilo que eu faço, aquilo que eu me proponho a fazer, aquilo que é a missão da instituição, tem uma importância fundamental para o País. Ou seja: há uma missão muito importante nesse trabalho que a gente executa. E eu tenho uma imensa afinidade. É tão grande que isso transborda da minha vida como servidor e vai para outros lugares, como a literatura”, finalizou.

Assista abaixo ao Diálogos Agrários com Itamar Vieira Junior na íntegra.


Link do vídeo no YouTube: https://youtu.be/B4n9r2X-V-Q
Link do vídeo no Facebook: https://www.facebook.com/SindPFA/videos/953865732020170


Colaborou Kássio Borba.